8 mar 2010
Carta de uma mulher
Leia artigo de Elisa Corso sobre o dia de hoje, que é o Dia Internacional da Mulher
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. É uma pena que apenas nesta data a mulher seja homenageada, pois subentende-se que todas as outras, com exceção ao dia das mães, são destinadas a homenagear os homens. A data foi escolhida em 1910 durante a II Conferência Internacional de Mulheres, realizada na Dinamarca, perdurando até hoje. Particularmente, acredito que, nesta data, deveriam ser relembradas as lutas diárias de todas as mulheres, mas infelizmente não é assim.
Cabe uma pequena retrospectiva histórica: em 8 de março de 1857, em plena Revolução Industrial, um grupo de mulheres tecelãs de uma fábrica em Nova York se rebelaram contra as más condições de trabalho a qual eram submetidas e foram para as ruas. Reprimidas pela polícia e pelos patrões foram carbonizadas dentro do seu próprio local de trabalho.
Desde então as mulheres têm lutado brava e diariamente contra toda forma de discriminação.A luta já foi ridicularizada por anti-feministas dos anos sessenta, e hoje está relegada a data festiva. Ocasião em que alguns patrões costumam presentear suas funcionárias com rosas, e maridos presenteiam suas esposas com pequenos mimos, como por exemplo, levá-la para jantar fora, livrando-a, ao menos nesta ocasião, dos afazeres domésticos.
O consumismo exacerbado também corrobora para que a data se torne, apenas, mais uma data festiva no grande calendário das vendas.Apesar desse panorama, podemos afirmar que hoje, graças a nós próprias, e a um custo muito alto, alcançamos muitas conquistas. Faltam outras muitas.O custo é alto, o trabalho é árduo e diário, pois a discriminação contra o trabalho da mulher ainda ocorre em todos os postos de trabalho, seja com a vedação de ascensão a alguns cargos ou com salários mais baixos.
Esse tipo de discriminação assim como outros “tiramos de letra”. Mas, infelizmente, há outra forma de discriminação pela qual ainda somos vítimas quase indefesas. É aquela que se materializa pela violência, característica masculina, muito bem exemplificada pela índole bélica e gratuitamente competitiva do homem.A violência é patologia de cunho social, de qual as mulheres são as maiores vítimas. Quando não é praticada diretamente contra ela, o é com seus filhos, ou com seus pais. A mulher tem laços familiares muito mais estreitos que os homens por isso sofre mais quando um deles é vítima.
Dentre todas as formas de violência da qual a mulher é vítima, destaca-se a violência doméstica. Seja explícita ou velada é praticada dentro do âmbito familiar por indivíduos por parentesco civil (marido, companheiro, sogro, padrasto, etc) ou parentesco natural (pai, mãe, irmãos, filhos, etc). São diversas as práticas utilizadas: controle da vida social e dos recursos econômicos, humilhações, ameaças, chantagens, gestos e posturas agressivas, agressões verbais e físicas, abuso sexual, negligência e abandono da prole e dos idosos. É fato que a violência contra a mulher é muito maior do que a contra o homem.
Em geral os homens agridem as mulheres entre quatro paredes, para que não sejam vistos por parentes, amigos, familiares e colegas do trabalho. No Brasil, ainda hoje, constata-se que o homem médio carrega consigo os conceitos da sociedade patriarcal de forma completa e sem crítica, e que se podem traduzir por “eu sou poderoso e forte e não frágil ou dependente”.O Estado e a sociedade organizada, desde muito tempo, tem dado atenção a essa epidemia, proporcionando guarida e tutela jurídica às mulheres vítimas da violência doméstica.
O aparato estatal envolvido no controle social do fenômeno violência, ou seja, a prevenção de ocorrências e punição do agressores, é complexo, porém pouco eficaz. A legislação pátria também procura tutelar os direitos da mulher vítima de violência. Recentemente promulgada, a Lei 11.340/2006 – mais conhecida por Lei Maria da Penha em homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica, cearense, que lutou por 20 anos para ver seu agressor (marido e pai de suas filhas), condenado e preso – criou mecanismos para coibir a violência doméstica procurando eliminar todas as formas de discriminação contra as mulheres, e estabelecendo formas de prevenir, punir e erradicar todos os tipos de violência contra nós mulheres.
Contudo, a violência continua e assim perdurá a menos que se promovam alterações de caráter político e cultural. É necessário um esforço conjunto e efetiva contribuição para a ampliação da cidadania feminina na luta contra todas as formas de violência, em especial contra a violência praticada contra a mulher, pois se trata de atentado aos direitos humanos e à consolidação da democracia, conforme entendimento da ONU – Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, 1993. A mulher vítima da violência, necessita, desde logo, de apoio psicossocial, em especial quando a violência decorre de abuso sexual.
Esta, é geralmente praticada por parceiros íntimos ou pessoas próximas, quando as vítimas se apresentam mais vulneráveis a vista do envolvimento emocional, dependência econômica, ou mesmo do medo que o agressor impõe. Ademais, é importante considerar que os casos de violência sexual estão presentes na maior parte dos casos de violência física e que estes costumam acontecer de forma sistemática e não isolada. Além da integração dos serviços de apoio social, judiciário, da área da saúde, da disponibilidade de recursos e de programas de apoio e proteção é necessária a capacitação da família e dos grupos comunitários para lidarem com o problema da violência não apenas como episódio isolado, mas como situação que se perdura. Pelas próprias características, contata-se que é prática recorrente que precisa ser extirpada do âmago cultural.
Portanto, é de primordial importância que não nos acostumemos a conviver com a violência doméstica, denunciando essas práticas assim que tomemos conhecimento delas. O silêncio, neste caso, é cúmplice da violência. Em outras palavras, é preciso que a violência seja tratada como exceção e não como regra de relacionamentos domésticos.É preciso que se adotem modelos educacionais que não passem pelo castigo, pelas agressões e pela violência. A violência doméstica entre pais e filhos gera mais violência, seja na escola, na rua e nos lares futuros. Criança não se educa com tapinhas. Tapinha de amor não existe. É proibido bater em qualquer pessoa mesmo que seja com uma flor. E, finalmente, mulher alguma gosta de apanhar.
Elisa Gonzalez CorsoFilósofa e Bacharel em Direito











